terça-feira, 28 de junho de 2016

Crianças seguem exemplos, não discursos

Os meninos arrumaram filhos. A do Otto, uma boneca descabelada que alguma criança esqueceu aqui em casa. Do Tales, um urso de pelúcia de procedência também incerta. Carregaram pra cima e pra baixo os filhos o fim de semana todo. Hoje cedo fomos à feira e, evidente, quiseram levar as crias.
"Tudo bem, mas cada um carrega seu próprio filho, combinado?"
Mais que depressa o Tales arrumou um pedaço de pano e fez um sling. O Otto precisou de ajuda para copiar a ideia genial do irmão.
Na rua, eles foram a atração: meninos que brincam de boneca. Um grupo de pessoas passou e uma moça vibrou "aiii que lindos, olhem, eles estão carregando os nenês no sling, que fofura!". Outros olhavam com uma grande interrogação estampada no rosto. Nenhum impropério declarado, nenhum julgamento audível, mas muitos estranhamentos. O que, francamente, vivendo nesse mundo doente que a gente vive eu acho absolutamente normal.
Os meninos têm um pai presente, participativo, envolvido em todos os momentos da vida deles, muitas vezes até mais do que eu. Um cara que precisou quebrar uma pá de paradigmas para se tornar o pai que se tornou, o homem que se tornou. Não veio pronto. É um trabalho de desconstrução diário que ele QUER fazer, é um eterno abrir-mão de privilégios que ele teria somente por ter nascido nesse corpo. E ele ESCOLHEU o outro lado. Não sem dor, não sem muito debate. Mas por amor. Por vontade. E os frutos desse abrir-mão estão aí, filhos que entenderam que quem cuida de nenê é quem tem vontade de cuidar de nenê. Não tem a ver com gênero, tem a ver com amor. E aí eles saem de casa com filhos a tira colo e chocam a sociedade. Aquela sociedade que prega que só meninas brincam de boneca. Que meninas treinam pra serem boas mães. Onde, consequentemente, as mulheres carregam cargas pesadíssimas, solitárias e silenciosamente, quando vivem a maternidade ao lado de um cara que escolheu manter o status quo. Porque é uma escolha. Por mais prafrentex que eu fosse como mãe, se o cara que tá do meu lado não comprasse a briga comigo, fuéééém... Não haveria milagre. Porque crianças seguem exemplos, não discursos. E o mundo muda por meio do exemplo dessas pessoas, não do discurso delas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sobre latidos e crises

Desde que os meninos nasceram nosso cãozinho Pierre adotou um jeito bem peculiar de manifestar sua preocupação quando um deles chora: ele late o latido mais agudo e estridente que conseguir na intenção de chamar nossa atenção para que façamos com que o sofrimento da criança acabe. É bem irritante, confesso, além de nada efetivo já que quando isso acontece primeiro nossa atenção se volta a calar o latido para só então conseguirmos raciocinar quanto ao choro.

Outro assunto.

Há algum tempo venho colecionando angústias quando leio notícias de tragédias. Não sei dizer em que momento da minha vida isso começou, mas de uns tempos pra cá tem doído muito mais do que eu estava acostumada. Pode ser porque hoje o acesso a informação é maior, pode ter sido a maternidade, pode ter sido só um amadurecimento pessoal. Pouco importa. O fato é que hoje meu nível de empatia é bem maior do que anos atrás.

Os últimos dias estão especialmente mais pesados. Teve o pequeno refugiado morto na praia, depois os índios Guarani-Kaiowá mortos por fazendeiros e agora o menino Cristian morto pela polícia. E isso foi só o que chegou para mim. Há quem opte por não ver, não querer saber. Eu entendo o raciocínio dessas pessoas, e secretamente até os invejo. Já que não podem ajudar o que adiantaria ficar sofrendo?

Só que eu cheguei num ponto em que não consigo mais não ver, não consigo mais me fechar numa bolha e tocar a vida. E isso me consome. Especialmente porque não acredito mais que posso salvar o mundo pelo facebook, foi-se o tempo em que me bastava compartilhar uma notícia indignante com uma hashtag de impacto e imediatamente ir ler sobre outro assunto achando que fiz minha parte. Não fiz porra nenhuma. Não mereço essa paz de espírito.

Sempre que digo publicamente que me incomoda o fato de eu não me sentir fazendo diferença no mundo as pessoas arregalam os olhos e, com a melhor intenção do mundo, tentam me convencer de que, sim, eu fiz alguma coisa. Na maioria das vezes me lembram que meus filhos são o que de melhor eu já fiz. Balanço a cabeça pra cima e pra baixo e desvio o olhar. Não era bem disso que eu estava falando.

Não há o que negar quanto aos meus meninos serem a minha melhor parte, são mesmo. Mas eles não são eu. Eles são seres totalmente capazes de seguirem os seus caminhos em busca de algo que lhes faça sentido. Mas achar que ter colocado no mundo dois seres com capacidade de realizar algo que eu queria ser capaz de realizar e não estou conseguindo seria suficiente para que eu me sinta melhor é, além de egoísta, pouco pra mim. Colocar neles todas as minhas expectativas frustradas é um fardo pesado demais para se dar para alguém carregar. É uma insatisfação muito minha para que eu saia por aí distribuindo porções para alguém pelo simples fato desse alguém ter saído do meu útero. Eu libero vocês, filhos.

É claro que a maternidade mudou a minha vida de tal forma que hoje quase não reconheço aquela pessoa que fui. Só que eu não quero passar meus dias me vendo nos meus filhos, preparando eles para viverem uma vida que eu perdi enquanto os preparava para viver. Isso além de ser injusto comigo, é injusto também com eles.

Então tá, não quero transferir para os meus filhos uma necessidade que é minha. Ok, quanto a isso estamos conversados. Mas, e agora?


E aí é que eu entro num looping infinito. Me dói, tenho urgência em salvar o mundo, mas tô aqui sentada na frente de um computador sendo teórica. Estou agindo feito meu cachorro diante do choro da criança. Latindo o mais alto e estridente possível sem efetivamente fazer nada. E ainda usando a energia de vocês que, na ânsia de aliviar meu sofrimento, vão tentar me consolar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Me ajuda aqui?

Lembro que minha mãe contava orgulhosa como eu fui uma criança que não deu trabalho. Um bebê bonzinho, que dormia a noite inteira, que quase não chorava. Cresci entre quatro irmãos, aprendendo no dia a dia a ser o mais independente possível, até por uma questão de logística numa família grande. Meus pais trabalhavam bastante e a gente foi ensinado desde cedo a se virar, a pedir ajuda somente quando não tivesse mais jeito. Nem sei se isso foi um ensinamento mesmo, é possível que eu que tenha entendido tudo errado. O fato é que em algum momento da minha vida eu entendi que não deveria incomodar, que pedir ajuda era ser fraca e que cada um deve se virar como pode. Enfim, cresci vendo a vida desse ponto de vista. Alguém se atreve a julgar meus pais? Jamais. Pessoas independentes são o que todos nós almejamos ser. Alguém discordaria disso? Só buscavam para os seus filhos o que de melhor poderia existir. 

Cresci me virando, não pedindo ajuda pra quase nada, um orgulho. E assim foi também com os meus irmãos. 

Depois de uma certa idade, acredito que essa busca por não atrapalhar os outros se transformou em algo parecido com o sentimento de não ser merecedor da preocupação alheia. Não era justo fazer alguém se preocupar com um problema que é só meu. E é aí que a coisa pega. O não ser merecedor.

As consequências são várias, e certamente vou voltar a falar disso, mas a pior que consigo ver é que agindo assim eu promovo um distanciamento natural das pessoas. Porque quem não pede ajuda, não recebe. E quanto mais a gente vive sem apoio, mais tem dificuldade em pedir. Porque pode segurar sozinha. Porque não quer incomodar. Porque não é merecedora de cuidado. Se torna um círculo vicioso: você se vira e dá conta de tudo, com isso conclui que é autossuficiente e pede cada vez menos ajuda. E cada vez mais se isola com uma carga pesadíssima pra carregar.




Eu demorei tempo demais pra descobrir que é num momento de aperto que a gente descobre pessoas disponíveis e com potencial de se tornar bons amigos. Que os laços de uma amizade não se estreitam magicamente em uma tarde agradável passeando no parque. Mas estar disponível quando alguém está em dificuldade tem um poder incrível. Que ligar pedindo uma mão quando a coisa aperta, também. As pessoas tendem a ser solidárias, empáticas, humanas, quando alguém está em uma situação de necessidade. Porque, afinal, é uma troca. Oferecer uma ajuda é quase mais reconfortante do que receber uma ajuda. É uma relação retroalimentada que tem fim em si mesma. 

Mas aí vem a vida moderna e nos incentiva a viver sem pedir ajuda. Ela dá um valor monetário para o que poderia ser um favor. Pagamos uma babá pra podermos ter um jantar romântico num sábado a noite, enquanto poderíamos pedir pra um parente que sempre se mostra disponível ficar com os meninos. Só que não queremos incomodar. Levamos pra terapia algo que poderia ser resolvido numa conversa olho no olho com um amigo que saiba oferecer empatia. Mas não podemos atrapalhar. Compramos tudo pronto pro aniversário dos filhos, enquanto poderíamos chamar umas amigas pra ajudar a enrolar os brigadeiros, exatamente como foram as nossas festinhas de aniversário. Só que não queremos perturbar as pessoas. E os laços vão ficando frágeis. As relações, frias. Sem trocas, sem cuidados, sem favores. 

Eu estou me esforçando no sentido de recuperar relações que nunca chegaram a existir. Aproveitar as oportunidades que o universo nos dá de estreitar e fortalecer as relações humanas. A maternidade me fez sentir essa necessidade de fazer parte de uma comunidade, de pertencer a uma tribo. É mais seguro, creio, educar filhos amparada por uma rede de apoio e deve ser daí que vem essa minha nova necessidade. Ainda erro muito, ainda sou muito resistente em assumir que, sim, preciso de uma mão, que preciso de apoio. Anos de programação mental me sabotando. Ainda não me sinto completamente segura para pedir apoio, confesso, mesmo depois de todas essas conclusões. É um caminho longo mas espero que esse seja o primeiro passo.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

E isso me basta...

Durante um bom tempo da minha vida eu imaginei que seria uma executiva. Que viveria em função do dinheiro, do trabalho, do poder. Me imaginava num cargo importante, me imaginava vestindo tailleur, me imaginava tendo uma secretária. Em almoços de negócios, reuniões em que eu falaria inglês, viagens a trabalho.

Aí o tempo passou.

E hoje, me vendo aqui deitada há horas ao lado de duas criaturinhas adormecidas que exalam um cheirinho de suor digno de ser engarrafado como perfume, pelas quais eu sou capaz de matar e morrer, não consigo parar de pensar no quanto a vida da gente dá voltas.

Nós não temos mais dinheiro do que precisamos, nosso carro é popular, moramos numa casa antiga e financiada. Não temos planos de viajar pro exterior, só compramos roupas em promoção, não somos sócios de um clube. Eu provavelmente vou me aposentar trabalhando na mesma repartição, ganhando o mesmo salário. Não temos grandes ambições. A Vanessa de uns 10 anos atrás me acharia a maior perdedora. E, quer saber? Tudo bem.

Hoje temos coisas que eu jamais imaginava que teriam tanto valor: temos todas as manhãs livres, fazemos todas as refeições juntos, uma pizza e um vinho bastam pro sábado a noite. Temos bons amigos sempre em casa, temos filhos sendo cuidados por pessoas em quem confiamos, temos um casamento saudável. Temos uma cama enorme em que, vez ou outra, dormimos os quatro juntos. Temos um abraço silencioso quando tudo desanda. E isso, pra Vanessa de hoje, basta.



domingo, 5 de abril de 2015

"Mãe, você sabe o que é ovo de Páscoa?"

Foi o que eu ouvi do Tales essa semana.

E a minha cabeça foi longe. Poderia ter respondido:

"Páscoa, Tales, é sobre um moço que tentou ensinar amor ao mundo. Tentou ensinar as pessoas a sentirem a dor do próximo como sendo a sua dor. Só que o mundo entendeu tudo errado. Então na Páscoa, ao invés de distribuirmos amor gratuitamente, compramos chocolate. Passamos a vida nos atacando, nos julgando, nos odiando, cada vez mais distantes uns dos outros, mas no dia da Páscoa nos presenteamos com ovos de chocolate. Por isso, pra mim, esse dia não tem sentido algum."

Não sou cristã. Não porque não acredito em Jesus Cristo, acredito sim. Acredito que foi um moço bacana, bem intencionado, com o coração cheio de amor ao próximo, coisa que eu respeito e admiro. Mas pra mim, parou aí. Ou melhor, antes tivesse parado aí. O que eu vejo por aqui não é nada nem próximo do que o cara lá tentou ensinar. O que vejo por aqui me faz concluir que não sou cristã. Não mesmo. Não quero estar do mesmo lado dos que pregam ódio ao diferente, dos que distorcem tudo e usam sua influência para manipular as massas. Prefiro buscar outros caminhos. 

Do dia em que comecei a pensar sobre espiritualidade até chegar ao dia em que eu falei em voz alta que não sou cristã se passou um bom tempo. Anos. Não é um raciocínio baseado em senso comum, pelo contrário. O senso comum me levava ao cristianismo. E eu hoje fujo dele.

O que não quer dizer que não tenho as minhas verdades, as minhas crenças pessoais, os meus princípios espirituais. Não sou ateia, embora compreenda quem seja. Só não me sinto à vontade tendo um salvador. Não é do meu perfil entregar toda a minha vida a um ser divino e esperar que ele me leve pelo caminho certo. Sou uma questionadora nata, sou uma chata em potencial, não consigo me conformar em não estar no comando da situação. Às vezes me pego pensando como seria melhor delegar essa função, seria como ter com quem dividir a culpa caso algo saísse errado. Acredito verdadeiramente que quem consegue fazer isso tem mais facilidade de ser feliz. Mas, de verdade, pra mim não serve. E não é nada pessoal com o tal do Jesus, acho mesmo que ele é um cara bacana. E se pra você ele é o salvador, pronto, então ele é o salvador. E sinta-se um privilegiado pois eu gostaria de conseguir sentir isso. Eu não subestimo a tua fé, por isso, me sinto no direito de esperar que você não subestime a minha não fé. 

Claro que é cedo pra falar sobre isso com o Tales, nem sei quando e como esse assunto vai surgir, se é que vai surgir. E espero também que demore pois ainda há muito o que ser problematizado para que eu, quem sabe, algum dia possa falar que tenho certezas sobre o assunto. Por enquanto, me limito a responder pontualmente às perguntas dele, sem entrar no mérito da espiritualidade. 

E quanto à pergunta sobre ovos de Páscoa, respondi da forma mais verdadeira e objetiva que consegui:

"Ovo de Páscoa é chocolate, Tales."

E é mesmo, não é? Não menti. Deveria significar mais coisa, mas não. Não significa. 



quarta-feira, 25 de março de 2015

...divagações matinais...



Era uma daquelas manhãs em que, depois de uma noite cheia de interrupções, sentia cada músculo reclamar a exaustão da falta de descanso noturno. Entre um bocejo e uma exclamação de dor, seu corpo encontra aconchego em um abraço calmo vindo de quem possivelmente sentia  o mesmo cansaço. Dividiam secretamente o mesmo abatimento e compartilhavam o mesmo algoz. O breve instante de paz fora interrompido prematuramente por aquele que os observava com um sorriso largo e que, ao encontrar uma pequena brecha, se fez pertencer àquele momento como quem o completava. Invadiu-lhes um sentimento de pertencimento, como se naquele momento todas as intempéries da noite passada se fizessem abafadas pela mais sincera manifestação daquele amor.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O que você faria por você mesma?

Tenho convivido com a crônica sensação de que estou errando. Não com os meninos, pelo contrário. É em prol da felicidade deles que destino boa parte da minha energia diária. Gosto dessa dedicação, faço por amor e por vontade, mas devo confessar que me consome. Depois que voltei a trabalhar, tenho a sensação de que a vida se tornou uma sucessiva repetição de comandos que têm como finalidade somente a própria sobrevivência. Há pouco espaço pra algo que fuja dessa rotina. Me pergunto se não tinha que ser mais do que isso. Tinha? 

A rotina é desgastante e a nossa opção de terceirizar o mínimo possível da educação dos meninos nos sobrecarrega. Sei que o Julio também se sente assim, só não fala. A diferença é que ele não abandonou as atividades que faz por ele mesmo, futebol e tal. É um refúgio, coisa que eu não tenho. Por opção, talvez, mas não tenho. Sobra para o Julio a maior parte da carga, já que os meninos passam 2 dias por semana em casa e o solicitam bastante. Apesar de tudo, é lindo de ver o vínculo deles ficando ainda mais forte. Quem no mundo pode ter esse contato diário tão intenso com o pai? 

Não posso reclamar do meu trabalho, tenho noção de que nado no mar de privilégios que o serviço público oferece. O que me mata é olhar pela janela e ver a vida passando enquanto eu estou enfiada numa repartição. Apertando botões. Por dinheiro. Ser só mãe era diferente, mesmo que bem mais puxado. Era sufocante, era estressante, era puro cansaço físico, mas era uma entrega ideológica. Era a gente fazendo a vida acontecer e não só vendo ela passar. Mas esse post nem era sobre trabalho. Era sobre o quanto eu me exijo em busca da felicidade deles. Do quanto, nessa jornada, eu vou me perdendo de mim.

No olho do furacão, fazendo malabarismos diários para manter toda a engrenagem funcionando, olho pra mim e tento enxergar o que ficaria se eu não tivesse o cargo de mãe. O que ficaria se só houvesse a Vanessa, sem o "mãe do Tales e do Otto" para me definir. Fico sem resposta. Seria um erro tentar voltar a ser quem eu era antes da maternidade, não sou mais aquela e nem quero ser. Mas, quem sou eu, então?

Engraçado é que essa reflexão vem em um momento em que eu me sinto tão emocionalmente livre. O Otto não exige nem metade da entrega emocional que o Tales exigia nessa idade. Não sei dizer se o Tales me exigia ou se eu é que dependia daquela entrega. Pouco importa. Quando o Tales nasceu eu me fechei em um casulo e ficamos fusionados por uns 3 anos. Ele não vivia sem mim, eu morreria sem ele. Eu não tinha necessidades que não envolvessem ele, eu não existia sem ele, eu era ele. E isso não é uma reclamação. Aquilo me fazia feliz. Só de imaginar sair do trabalho e ir pra um happy hour sem ele me dava pânico. Eu queria estar com o meu filho, sempre, o tempo todo. Já o Otto é de uma autossuficiência incrível. Sinto que a ligação que ele tem com o Julio é tão forte quanto comigo. Não me sinto mais insubstituível como me sentia, e olhe só, gosto disso. Eu amo estar com ele, sinto uma saudade que chega a doer quando ficamos algumas horas separados. Mas é um sentimento mais maduro, mais calmo, menos passional. Não tem nada a ver com amar menos. Acho que está mais para uma maturidade emocional da minha parte. Tenho várias teorias pra explicar isso, mas todas ficam no campo do achismo, então, deixa pra lá.

Essa liberdade emocional que eu tenho agora me trouxe uma necessidade que eu não estava acostumada a ter: pensar em mim. Mas que esbarra na loucura que é a manutenção da vida. A rotina, os horários, tudo tão urgente, tão engessado a ponto de não me permitir sequer ter um tempo só pra mim. Tudo é prioridade, menos eu. Até porque, até esses dias, esse "eu" nem existia. Tudo era pra eles, tudo era por eles. Eu era eles. 

E quando falo em ter tempo pra mim, você aí pode estar pensando que tenho planos muito ousados. Que nada. Quero conseguir organizar minhas ideias, escrever, ler, relaxar minha mente. Claro que uma escapada com algumas poucas amigas num começo de noite depois de colocar os meninos pra dormir não me soa mal. Mas o que mais preciso nesse momento é estar comigo. Sinto falta de mim. Sinto falta de fazer algo por mim mesma. Será o fim do meu puerpério?

"Se você tivesse uma amiga que exigisse de você o quanto você se exige, quanto tempo você permitiria que essa pessoa fosse sua amiga?
Se você tivesse uma amiga que te tratasse da mesma forma como você se trata, quanto tempo você permitiria que essa pessoa fosse sua amiga?"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

De volta a velha vida


E o ciclo se fechava ali, na manhã ensolarada da primeira quarta feira do ano de 2015: oficialmente eu deixava a função de mãe em tempo integral pra voltar a ser a mãe que trabalha fora. 

Fiquei um ano em casa. Um ano em que eu cresci uns 10. Um ano que valeu mais do que boa parte do que eu já vivi durante toda a minha vida adulta. Um ano em que eu precisei tomar decisões que me levaram a viver coisas que eu jamais teria vivido por pura inércia. Sabe aquela história do "não se acostume com o que não te faz feliz"? A gente se acostuma, sim. E bem fácil. E por preguiça. E só vê que a mudança foi o melhor que poderia acontecer depois que passa o desespero inicial.

Foi nesse ano que tiramos o Tales da escola. Na época, a atitude foi considerada uma loucura por 10 em cada 10 pessoas em sã consciência. Afinal, eu tinha um bebê recém nascido em casa e, sabe né, dá trabalho. Nós tomamos a decisão sem certeza de nada, foi uma atitude baseada em amor, nada mais. E foi lindo, do começo ao fim. Se é que já teve um fim. Tê-lo com a gente em tempo integral, acordar junto, fazer todas as refeições juntos, passar a tarde brincando, conhecer os seus amigos imaginários, estar disponível pra ser o colo que ele busca quando algo não sai como o imaginado, isso foi o exercício de maternidade mais pleno que eu poderia ter. Tê-lo deixado na escola teria sido mais cômodo, mas bem menos vivo. Ele não estava feliz, tampouco eu. Só que a gente se acostumaria, não tenho dúvidas disso. A resiliência é uma qualidade humana um tanto ingrata. Faz você se acostumar e se adaptar ao que não te faz bem. Há algum tempo alguém me falou que bom mesmo é o filho que traz problemas, porque tira a gente da inércia. Hoje eu concordo em absoluto. E sou muito grata ao Tales por me fazer enxergar mais isso.

Por ter o Tales fora da escola, passei o ano em busca de lugares onde ele pudesse interagir com crianças, mas onde eu também fosse bem vinda. Não queria largar ele e ir embora. Queria ficar observando como ele se saía, já que ele vinha de um período difícil de insegurança. Eu queria algo que eu nem sabia se existia. E os dias foram passando, a vida tomando um rumo tal que quando eu me dei conta nós estávamos passando quase todas as tardes na Casa Labirinto. Um lugarzinho fofo, com uma atmosfera leve, um clima de sexta feira a tarde e cheiro de casa de vó que nos acolheu e nos ganhou pra sempre. A ideia da casa é ser um lugar lúdico em que a criança se sinta livre para ser somente criança. Sem preocupação com o pedagógico, com a alfabetização, com o currículo, com a grade horária. Nada mais do que brincar. Tipo um recreio em tempo integral. Pronto, era isso que eu procurava! Lá eu conheci pessoas que tornaram a minha jornada, sempre tão exaustiva, mais leve. Conheci pessoas com um estilo de vida que eu quero pra mim. Gente que anda por um caminho tão de luz que só irradia coisas boas por onde passa. Gente que, muitas vezes sem saber, salvava meus dias. Me fazia ter certeza de que era por aí o caminho, e que eu não estava sozinha nessa busca. Gostamos tanto que o plano agora é levar o Tales e o Otto para passar algumas tardes lá enquanto eu trabalho. Foi a melhor alternativa que conseguimos para fugir da escolarização.

Como esse foi um ano em que eu me dediquei completamente aos meninos, claro que teria que faltar de algum lado. A rotina é cruel quando se tem dois filhos pequenos e se passa o dia todo na função. Nesse ano meu casamento foi se modificando de tal forma que se alguém conseguisse prever o futuro e me contasse que ia ter um final feliz eu faria uma cara de interrogação, totalmente desacreditada. É uma conquista diária manter a paz no relacionamento a dois quando o caos de uma casa com duas crianças toma o lugar do romantismo. Mas, aos poucos, não sem muita conversa, não sem muita lágrima, a gente vai encontrando um amigo onde antes havia um amante. Vai encontrando um amor maduro no lugar de uma paixão louca. Vê que o amor se manifesta em pequenos gestos. Que o casamento é baseado em pequenas trocas. E vai vendo que o que vale mesmo é isso, o dia a dia, o companheirismo, a parceria. 

E com a chegada do fim de ano o fantasma da volta ao trabalho começava a me assombrar. Nesse ano todo eu não passei um dia sequer sem tentar encontrar uma forma de não precisar mais terceirizar uma parte da criação dos meus filhos. Fui e voltei milhares de vezes de idéias furadas, que nunca saíram dos planos. E, bom, como você deve estar percebendo, não encontrei solução, voltei a trabalhar e optamos pela via menos impactante pra eles. Escola era a nossa última opção. Eu sinto que errei com o Tales ao escolarizá-lo tão cedo e seria um absurdo repetir isso com o Otto. Optamos por, num primeiro momento, deixá-los em casa com uma babá. A ruptura me parecia menos abrupta já que eles continuarão em ambiente familiar. O pai trabalha em casa e está disponível quando a saudade bate. A rotina segue a mesma de quando eu estava presente, a alimentação, a soneca no meio da tarde sem hora pra acabar, o cheiro de casa, o aconchego. Então agora passam algumas tardes em casa e outras na Casa Labirinto. E com a consciência de que tudo é tentativa e erro. Se não funcionar, mudamos tudo outra vez.  

Aí chegou o primeiro dia de volta à velha vida. E foi tudo de uma leveza, de uma naturalidade, que me fez sentir uma certa vergonha da auto importância que eu me dava. É engraçado como a gente se prende a papéis (eu, no caso, o papel de mãe insubstituível) e, especialmente quando se gosta muito do papel que "representa", a gente se agarra naquilo como se isso fosse quem realmente somos. E a gente luta com toda força, tenta se convencer a todo custo que estamos ali tão somente porque se saírmos, a casa cai. Só que não cai. E a sensação de ver que não cai é ainda melhor do que aquela falsa ilusão de que carregamos o mundo nas costas. É libertador. 

Hoje faz duas semanas que estou passando as tardes longe deles. Ainda não me encontrei totalmente no ambiente de trabalho. Talvez porque eu sou uma pessoa bem diferente da que saiu. Um ano vendo a vida de outro ângulo muda muitos paradigmas. Mas como trabalho com pessoas maravilhosas, cada uma a sua maneira, e temos um ambiente bom, não é nenhum sofrimento passar o dia lá, pelo contrário.

E, aos poucos, tudo vai começar a fazer sentido novamente.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vai, filho... ouse!

Não deixe que te digam o que você não vai conseguir fazer. Não siga a manada, não leve a vida no modo automático, repetindo padrões sem questioná-los. Gente que busca alternativas, que desvia do padrão, que olha para os lados, que se analisa, é gente que dá trabalho. Sair da zona de conforto, não fazer como todo mundo sempre fez só porque sempre foi assim, questionar, debater e argumentar. Isso tudo nos leva a mudanças. Mudanças de padrões que nos mantém acomodados em uma perfeita ilusão. 

Ousar é viver no modo manual, é tomar as rédeas da vida, é escrever sozinho a sua própria história. Você vai errar, claro que sim. Mas só erra quem ousa tentar. Quem foge do caminho pré determinado, da linha reta, do quentinho e seguro. Quem vai em busca de descobrir o que faz sentido pra si, solitariamente. 

Sempre haverá o medo de não estar fazendo as escolhas certas, já que não há certezas por esse caminho. A dúvida será sua parceira constante. Não é fácil destoar do bando. Não mesmo. Não é fácil pensar fora da bolha, mas eu te garanto que aqui fora tem muito mais ar. 

Vai, filho... Ouse! Vão te dizer que enciclopédia não foi feita pra servir de escada pra alcançar a pia, mas nem ligue. Adultos costumam ter um olhar limitado, temos dificuldade em enxergar o que vocês estão vendo. Nos acostumamos com o seguro, o enfadonho, o convencional. Por isso, ouse! Por você, por nós. 

No seu tempo, busque as suas verdades, do seu jeito.

E não esqueça: se algo der errado, estaremos aqui pra te ajudar a levantar. 





segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quando nasce um irmão, nasce o ciúme...

Aí o Julio chega em casa e diz:

“Vanessa, precisamos conversar. Em alguns dias vou trazer para casa uma outra mulher, uma mulher muito bacana, vocês poderão ser muito amigas. Você precisará entender e ser madura o suficiente para me ajudar com a adaptação dela, afinal o começo será difícil para todos nós. Para que ela se sinta protegida, nos primeiros meses ela é quem vai dormir comigo, mas não se preocupe, você vai ganhar um quarto lindo só pra você! Vou pegar uma licença no trabalho para poder ficar com ela em tempo integral mas seria bom que você continuasse indo todos os dias trabalhar, porque eu não conseguiria dar atenção a vocês duas juntas. Eu disse a ela que não trouxesse muitas roupas, que você emprestaria as suas, aquelas que você não usa mais, sabe? Ah, o pessoal está louco para conhecê-la, logo que ela chegar iremos receber muitas visitas e provavelmente trarão presentes pra ela. Espero que você não sinta ciúmes, afinal eu amo vocês duas igualzinho.”

E aí?

Claro que essa historinha não é real, eu li algo parecido com isso em um livro de um pediatra espanhol e achei perfeito pra me colocar no lugar do Tales e entender o que se passa na cabeça de uma criança que ganha um irmão, guardadas as devidas proporções.

O Tales e eu sempre tivemos uma conexão emocional muito grande, o senso comum definiria como “são muito grudados”. Ele mamou no peito até pouco mais de 2 anos, e isso ajudou bastante na criação de um vínculo emocional bem forte. Eu sentia que eu era o porto seguro dele. Só eu. Segurança em forma de leite. Aí ele foi desmamando, foi crescendo, o vínculo foi mudando. Não ficou mais fraco, mas ficou diferente. A sensação era de que ele agora confiava também em outras pessoas, não mais só em mim. Se saciava em outras fontes. Não éramos mais uma só emoção para dois corpos. E isso pra mim nunca foi algo ruim, confesso que me senti até aliviada quando percebi o que estava acontecendo: meu bebê estava crescendo. Eu não era mais insubstituível. Um grande alívio para uma pessoa que, depois que se tornou mãe, desenvolveu um medo absurdo da morte. Medo de faltar para alguém com quem eu tinha um vínculo vital.

Esse vínculo eu poderia definir como sendo um pequeno fio, em que eu segurava em uma ponta e ele na outra. Ele até poderia ir longe de mim, mas sempre segurando a ponta do fiozinho. Sempre sabendo pra onde voltar. Até o dia em que ele se sentiu seguro para ir até onde o fio não alcançava e então precisou largar. E foi. E encontrou coisas muito bacanas por lá, pessoas boas, um mundo novo. Mas pouco tempo depois de ter largado o fio, percebeu que alguém agora estava segurando no lugar que era seu. E se ele precisasse voltar? E se tivesse errado ao largar? E se algo acontecesse de ruim, pra onde ele correria?

O que ele ainda não sabe, e é nossa obrigação como pais ensinar, é que esse fiozinho imaginário só tem função enquanto a gente ainda não conhece o caminho de volta. Depois de um tempo, mesmo sem esse referencial, já fomos e voltamos tantas vezes que conhecemos o caminho e sabemos que nosso lugar estará sempre lá. Podemos deixar que outra pessoa menos experiente segure na ponta do fio, pois já não precisamos mais dele.



Aqui em casa tivemos um início bem tranquilo, chegamos até a comemorar timidamente o fato de o Tales não estar enciumado com a chegada do irmão. O que seria totalmente antinatural, eu sei, já que ele tem apenas 2 anos. As primeiras duas semanas foram bem atípicas, ele estava encantado. Mas passado o período de euforia, imagino que ele pensou: “Deu né, neném? Acabou a graça, pode ir embora agora!”. E não, ele não foi embora. E o ciúme bateu forte.

Aos poucos estamos encontrando formas de mostrar a ele que nada mudou, que o Otto veio para somar e não dividir. Mas que o ciúme é um sentimento legitimo e que estamos aqui para acolhê-lo e ajudá-lo nessa fase difícil.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

E que a minha loucura seja perdoada...

Uma farsa. Era isso que eu me sentia, uma mentira. Eu nunca acreditei que escola é o lugar ideal para uma criança pequena. Rotina rígida, horário fixo, obrigação de ir todos os dias para o mesmo lugar, não era o que o meu filho precisava nessa idade. Essa era uma obrigação social minha, que eu assumi por livre vontade quando resolvi trabalhar fora. Ele não. Ele não escolheu isso, nem precisava disso, era algo que eu impus a ele por falta de opção. Isso sempre esteve muito claro pra mim, já até falei sobre isso aqui.

Aí eu engravidei do Otto. Aí o Otto nasceu e cá estou eu, em casa o dia todo, de licença maternidade. E a farsa começou.

Eu sempre quis ficar em casa cuidando dos meus filhos em tempo integral, nunca escondi de ninguém esse meu desejo. Trabalho fora por dinheiro, se me pagassem o que eu ganho pra ser só mãe eu topava fácil. Mas agora eu estava em casa e continuava levando o Tales pra escola. Contra tudo o que eu acredito e, pior, contra a vontade dele. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Eu era uma fraude.

E não estava fácil levar adiante. Todos os dias, desde a hora de colocar o uniforme era choro. Era choro e pedido para não ir pra escola. Era choro pra entrar no carro, era choro pra sair do carro, era choro pra entrar na escola. Era eu chorando em casa sozinha o resto do dia. Era eu tentando me acostumar com o que me matava por dentro. Eu sabia que precisava fazer alguma coisa.

Os conselhos chegavam de todos os lados:

“Não ceda, ele está te manipulando”
“Toda criança chora, é normal, logo ele acostuma”
“Ele tá com ciúmes do irmãozinho, o meu também passou por isso, nem ligue”
“Criança não tem querer, escola é obrigação”

Eu tenho péssimas lembranças de escola na minha primeira infância. Não lembranças de fatos em si, mas de sentimentos. Angústia. Solidão. Só de pronunciar o nome da escola que eu frequentava quando era bem pequena me dá um nó no estômago. Já da escola que eu fui quando era um pouco maior (uns 4 anos) eu tenho ótimas lembranças.

Na ânsia de achar “culpados” fui atrás de outra escola, tentando me convencer que o problema era aquela escola. Quem eu queria enganar? Conheci uma escola linda, com uma pedagogia diferenciada (waldorf), mais leve, aconchegante, com cara de casa de vó, fiquei super animada. Passamos algumas semanas analisando, tentando tomar uma decisão em meio a muito choro. O Julio foi contra mudar de escola. Voltamos à estaca zero.

Um dia o Tales falou uma frase que me fez ver que aquele embrulho no estômago que eu ficava depois de levá-lo chorando pra escola era o melhor indicador de que eu estava errando, e errando muito. Eu estava trocando a fralda do Otto, que chorava. O Tales chegou perto dele e disse:

“Pare de chorar, neném... senão você vai pra escolinha, heim?”

Aquilo foi o tapa na cara que eu merecia. O que eu estava fazendo? Pro Tales, escola era punição.

Marcamos uma reunião com a pedagoga da escola. Fui com 5 pedras na mão, esperava ouvir conselhos no mesmo estilo dos que eu já vinha ouvindo dos outros. A conversa começou com faíscas, com frases no estilo “crianças são espertas, elas te manipulam”. Taquei minhas primeiras pedradas. Aos poucos a conversa foi tomando outro rumo, menos institucional e mais humana. Menos cérebro e mais coração. Menos pedagógica e mais materna. Fomos acolhidos, apoiados, compreendidos. Saímos de lá com o apoio que precisávamos para tirar o Tales da escola com a tranquilidade de que ele poderá voltar no ano que vem, se quisermos.

E assim está nossa vida agora, de cabeça pra baixo com 2 crianças em casa. Como vai ser daqui pra frente? Não sabemos muito bem. Mas sabe aquele embrulho no estômago? Sumiu.




domingo, 23 de março de 2014

O parto do Otto

2h da manhã. Uma cólica. Fraca. Eu estava dormindo, acordei com o barulho do Julio se preparando pra dormir. Será? Sempre me falaram que quando fosse realmente a hora eu saberia, então se eu não tinha certeza, provavelmente não era. Volto a dormir. Outra cólica. Era a hora. Chegou o momento que eu esperei tanto. Mas vai demorar, claro. Vou tentar dormir. Mais uma. Como eu esperei sentir aquilo, difícil até de acreditar que o momento chegou. Preciso marcar o intervalo das contrações. Irregulares, bem espaçadas, dor muito suportável, vai demorar muito. Queria dormir, mas não conseguia. No auge de uma contração o Julio acorda e percebe que estou com dor.

“Tá tudo bem? Tá com dor?”
“Contrações, mas estão bem irregulares, pode dormir porque vai demorar.”
“Mas, como assim? Já é contração de parto?”
“É, mas é só o começo, pode demorar muito. Não se preocupe que eu estou bem.”

As dores foram ficando mais intensas, mais próximas, mas ainda sem ritmo. Fui pro banho. Tomei banho com a luz apagada, pra não despertar, queria voltar a dormir ainda. A água morna caindo na lombar aliviava toda a dor.

3h. Volto pra cama, sem roupa, enrolada na toalha. As dores agora vinham com mais força e com mais frequência, mas ainda sem ritmo.

“Ainda tá doendo?”
“Tá. Mas pode dormir, não vai acontecer nada antes de amanhecer”

……..

Contração, contração, contração.

……..

“Está vindo com mais frequência, né? Será q não é a hora de ir pra maternidade?”
“Não, não é assim, Julio. Só vou quando estiver insuportável.”

[Eu queria ir pra maternidade o mais tarde possível porque normalmente o trabalho de parto evolui melhor e é mais rápido em um ambiente em que a parturiente se sente segura. Com muitas mulheres o trabalho de parto acaba estacionando quando a mulher chega na maternidade. Aí, inevitavelmente, ela acaba sendo sujeita a intervenções médicas para acelerar o parto, o que aumenta a dor e também os riscos, especialmente pra quem, assim como eu, teve uma cesárea prévia.]

…….

4h40. Escuto um “ploft”, como se fosse um bexiga estourando. Levanto rápido e instintivamente coloco a toalha no meio das pernas. Era a bolsa estourando. A toalha era branca, deu pra ver que a água estava escura. Meu obstetra havia me alertado a observar a cor da água, se a bolsa rompesse em casa. “Caso seja clara fique tranquila e observe as contrações. Caso seja escura, me ligue imediatamente.” Era escura.

[A água fica escura pelo cocôzinho do bebê, o que pode indicar que ele está em sofrimento. Embora somente este fato não signifique nada isoladamente, é preciso avaliar outras coisas para afirmar, como o batimento cardíaco fetal]

“Julio, a água. A água esta escura.”
“E agora? Vamos pro hospital!?”
“Calma, vamos ligar pro Dr. Alvaro.”

…

“Não atende, Vanessa! Melhor a gente ir pro hospital!

[Nessa hora eu senti medo. Eu sabia que a água escura não era um bom sinal, meu bebê poderia estar em sofrimento, eu precisava fazer alguma coisa. Mas eu também sabia que chegar numa maternidade cesarista com bolsa rota, água escura, provavelmente sem dilatação e sem o meu obstetra… pfff… era cesárea de emergência mesmo que estivesse tudo bem com a gente! Mas ok, vamos. Eu realmente não contava com aquela água escura. Perdi o chão. Mas eu não poderia colocar meu bebê em risco. Dane-se o meu parto.]

As contrações ficaram muito fortes depois de romper a bolsa. Mal conseguia andar. Ajoelhava no chão. Uma contração atrás da outra, poucos segundos pra respirar. Desço e sigo em direção ao carro, parando a cada contração. A dor é bem forte, começa nas costas e irradia para o baixo ventre. Eu massageava a lombar numa tentativa em vão de aliviar um pouco. Totalmente em vão. Mas a dor não é constante, é como uma onda, começa leve e vai aumentando até o ponto que você pensa que não vai mais aguentar, ai ela começa a diminuir e some completamente. E você ganha alguns segundos pra respirar e se preparar pra próxima.

O trajeto até a maternidade é longo, uns 6 km, mas nessa hora eu já não estava mais nesse plano. A dor intensa tira a racionalidade, leva a gente pra um estado de consciência diferente.

Chegando na maternidade o Julio foi fazer o internamento e eu de cócoras no meio do corredor tentando achar uma posição que aliviasse, em vão. Escutei alguém gritando chamando uma enfermeira. Me levaram pra sala de triagem. Aí começou a minha luta contra o falido sistema obstétrico tradicional brasileiro. 

[O sistema tira da mulher o protagonismo do parto, tira da mulher a confiança no seu corpo, infantiliza a mulher a ponto de fazê-la acreditar que não é capaz de parir sem intervenção médica, que seu corpo é defeituoso. Um sistema que leva diariamente milhares de mulheres para uma grande cirurgia, desnecessariamente. A maioria destas mulheres queria parir, mas a série de erros e violências que ela sofre desde que dá entrada na maternidade a fazem ter certeza de que ela não é capaz. E pior, que foi “salva” pela cesárea. Eu não queria mais fazer parte dessa estatística.]

“Tá de quantas semanas?”
“41”
“Bolsa rota?”
“Sim”
“Deita na maca que o obstetra já está vindo te avaliar”
“Não consigo deitar, prefiro ficar aqui. Me dá um copo d’agua?”
“Não pode tomar água, preciso que você deite pra ele te examinar”
“ok”

Chega o obstetra plantonista. Ouve o coraçãozinho do bebê, tudo bem. Faz o toque, sete centímetros.

“É teu primeiro filho?”
“Não, segundo”
“O primeiro foi parto ou cesárea?”
“Cesárea”
“E esse vai querer cesárea também?”
“Não”
“Ok, estamos tentando falar com o teu obstetra, enquanto isso vamos pro centro obstétrico”
“Eu preferia esperar meu médico chegar no quarto”
…risos da equipe plantonista…
“Não dá, mãezinha”
…
“senta na cadeira de roda pra eu levar você, mãezinha”
“eu prefiro ir andando”
“você não vai conseguir”
“eu não vou sentar, eu vou andando!!”

[Chamar a parturiente de "mãezinha" ao invés de chamá-la pelo nome, dizer o que ela não vai conseguir fazer, são exemplos de como se infantiliza uma mulher. Mulheres infantilizadas têm medo, se sentem incapazes. Não seria mais honesto encorajar a mulher neste momento?]

O Julio foi fazer a papelada do internamento e eu fui pro Centro Obstétrico. Fomos direto pra sala de parto, que sinceramente deveria se chamar “sala de cirurgia” porque não é uma sala preparada para parto, absolutamente. É perfeita pra te operarem, não pra você parir.
A enfermeira me ofereceu analgesia, eu não quis. Pediu pra que eu deitasse que meu médico logo chegaria e saiu da sala. Não deitei, fiquei acocorada no chão, era a posição que me deixava mais confortável.

[A posição horizontal é a menos indicada para o parto normal, porque é contra a gravidade, além de aumentar muitíssimo a dor. O mais indicado é que a parturiente fique na posição que ela escolher. Só durante o trabalho de parto ela consegue saber como quer ficar. Ficar na posição que se sente mais confortável diminui drasticamente a chance de laceração.]

Entraram duas enfermeiras na sala conversando entre si, mexendo em agulhas, acessos, etc. Uma fala pra outra “eu trouxe o sorinho, será que ela vai querer, porque não quis nem analgesia…” Eu me meti na conversa dizendo que não queria. Elas saíram da sala.

[O "sorinho" é ocitocina sintética, usado para acelerar as contrações e fazer o trabalho de parto durar menos tempo. Quando se usa o sorinho a dor aumenta desumanamente, além de não ser indicado para quem tem uma cesárea prévia, já que faz o útero se contrair artificialmente, aumentando o risco de ruptura uterina devido a cicatriz da cesárea.]

Voltaram pedindo pra que eu deitasse na maca.

“Moça, deite na maca, pela posição que você está o teu bebe está quase nascendo, é melhor você deitar”
“Eu não consigo deitar, prefiro ficar assim!”

Continuo ali no chão, acocorada e sozinha. Peço pra chamarem meu marido.

“Calma, ainda não é a hora, quando estiver nascendo ele vem”

A enfermeira insiste que eu preciso deitar na maca, eu me nego.

“Se você não deitar na maca teu bebê vai nascer e cair de cabeça no chão, você quer isso?”
“Se é só essa a ajuda que você pode me dar, eu dispenso… pode me deixar aqui sozinha que eu sei o que é melhor pra mim e pro meu filho”

[Tudo que eu precisava nessa hora era acolhimento, era incentivo, era alguém pra me falar que estava tudo bem e que tudo daria certo, não alguém me dizendo q meu filho cairia no chão. Fui muito grossa com a enfermeira nessa hora e não me arrependo.]

Ela sai da sala e eu fico sozinha de novo.

Entra o obstetra plantonista

“Eu preciso que você deite na maca porque não vai dar tempo do teu medico chegar então eu vou fazer o teu parto”
“Eu já falei que não vou deitar e eu não preciso que você faça o meu parto, eu sei o que fazer e farei sozinha”

[Essa frase "fulano fez meu parto" sempre me incomodou. Em condições normais o médico não faz nada, quem faz todo o trabalho é a mulher.]

Ele não ficou muito contente, mas não insistiu. Sentou e ficou só me olhando. Tive outra contração forte e gritei algo como “aaiii, me ajude”… o obstetra falou “ué, você não disse que sabia o que fazer e faria sozinha?”

Passada a dor, me vi sozinha novamente na sala.

Comecei a sentir uma vontade imensa de empurrar, de fazer força. Incontrolável. A dor sumiu totalmente, só sentia uma pressão no assoalho pélvico e minha barriga baixou assustadoramente. Saiu o tampão mucoso, bem maior e mais cheio de sangue do que eu imaginava. A cada contração eu empurrava e sentia a cabecinha coroando e voltando.

“Vai nascer, chama meu marido!!!”

Entraram o médico e as enfermeiras novamente.

“Moça, é sério, você não pode ter esse bebê aí no chão, eu vou te ajudar a subir na maca, não precisa deitar se não quiser, mas suba na maca!”

“ok, mas eu não vou deitar…”

Nessa hora lembro que olhei bem pra cara do médico e disse:

“Doutor, eu não quero episio, de jeito nenhum!”
“Tudo bem, mas suba na maca”

[Episiotomia é o corte feito no períneo para supostamente facilitar a saída do bebê. As evidências cientificas mostram que nenhuma episio é necessária, porque não ajuda em nada, não previne laceração já que é pior que uma laceração. Episiotomia é crueldade, é mutilação genital. Porém, a maioria dos médicos a faz sem ao menos consultar a parturiente.]

Subi na maca e fiquei de cócoras. Pedi pra chamarem o Julio. Me deixaram sozinha de novo.

Eu sentia a cabecinha coroando e voltando. O Julio chegou e se assustou por eu estar sozinha, não entendeu nada. Ele esperava algo parecido com a cesárea, esperava que ia assistir e não participar. Eu não consegui explicar nada do que eu tinha passado, só disse pra ele ficar ali comigo, e ele ficou. Na próxima contração o bebê coroou.

[É impressionante o controle que a gente tem do períneo, coisa que eu nem sonhava. Eu estava “segurando” o bebê já há algumas contrações, quando me vi segura, relaxei o períneo para que ele coroasse. Se eu estivesse anestesiada não teria esse controle] 

Pedi pro Julio olhar:

“Julio, olhe lá, saiu a cabecinha…”
“Meu Deus, saiu a cabeça, o que que eu faço, vou chamar alguém!!!”
“Não, calma, tá tudo certo, é assim mesmo, não chama ninguém. Pega aquele pano e se prepara porque na próxima contração vai sair o bebê inteirinho e você precisa segurar.”
“Mas não é melhor eu chamar o médico, e se acontecer alguma coisa?”
“A única coisa q vai acontecer agora é esse bebê nascer! Se prepara que é agoraaa…”

Veio a contração, sem dor nenhuma, só a vontade de empurrar. Senti o Otto saindo inteirinho de dentro de mim. Um alivio indescritível. Uma sensação de poder, de domínio do meu corpo, coisa que eu jamais havia sentido antes. Eu só pensava que se eu fiz isso, eu faço qualquer coisa!

O Julio pegou o Otto, enrolou no pano e me deu. Encolhidinho, chorou forte, alto. Eu estava em êxtase.



“Agora eu vou chamar um médico, Vanessa…”
“HAHAHA, agora você pode chamar quem você quiser!”

Entraram todos, obstetra plantonista, enfermeiras, pediatra…

Pedi pra ficar com o bebê por um tempo, eu queria dar o peito antes de levarem ele para os exames. O pediatra concordou. Sugeriu que eu tirasse a roupa e colocasse o bebê em contato com a minha pele e assim tentasse amamentar. Fiquei com ele um bom tempo assim.

[As evidências mostram que amamentar o bebê na primeira hora de vida, assim como colocá-lo diretamente na pele, favorece a descida do leite e a criação de vínculo entre a mãe e o bebê.]

 O obstetra disse que precisava tracionar a minha placenta, que ainda não havia “nascido”. Eu neguei.

“Eu queria esperar ela sair naturalmente, com as contrações”
“É que as vezes ela não sai sozinha e é preciso dar uma puxada”
“Vamos esperar pelo menos mais uma contração então”
“Mas não tem porque esperar…”

Eu estava cansada demais pra continuar aquela discussão, por sorte o pediatra que estava na sala ouviu e interferiu:

“Doutor, faz o que ela tá pedindo, não custa…”

A contra gosto ele esperou e a placenta saiu inteira na primeira contração.

Não satisfeito, ele queria cortar o cordão desesperadamente. Eu pedi pra esperar parar de pulsar. Ele argumentou. O pediatra novamente interferiu.

“Dá pra esperar sim, vamos esperar”

[Enquanto o cordão está pulsando, o sangue da placenta está indo para o bebê, o que previne a anemia no recém nascido.]

Depois de cortado o cordão, fiquei ainda alguns minutos com o Otto nos braços, amamentando.

Pouco antes de levarem ele para pesar e examinar, chegou o meu obstetra, esbaforido e se desculpando. Não havia do que se desculpar, nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria que meu trabalho de parto fosse ser tão rápido. Ele demorou cerca de meia hora, mas já era tarde. Ele me examinou para ver se não havia laceração. Nada. Uma pequena escoriação, mas que não seria preciso nenhum ponto. O Julio foi com o pediatra acompanhar os procedimentos no bebê e depois nos encontramos no quarto.

...........

O Otto nasceu às 6h da manhã do dia 30/01/14, com 3750g e 52cm, apgar 10 e 10, de 41 semanas e 5 dias de gestação, depois de 4 horas de trabalho de parto sem nenhuma intervenção médica, aparado pelo pai em um parto natural hospitalar desassistido.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Puerpério: bem mais que emagrecer, sangrar e amamentar


Por favor, pare de ler esse texto se você ainda não é mãe. Provavelmente você não será capaz de compreender o que uma mãe sente no período pós-parto e eu não preciso do seu julgamento.

Não se trata de estar ou não feliz. Não tem a ver com felicidade, absolutamente. O puerpério, que começa com nascimento do bebê e não tem prazo para acabar, é um período de sombras. Meu corpo que tenta se recuperar do parto, que por mais natural que tenha sido, sempre deixa marcas físicas. Meu útero que sangra incessantemente. O bebê que mama na mesma intensidade em que eu emagreço. E eu tentando me encontrar nessa nova rotina, na função de mãe de dois. Aprendendo a ser mãe de um segundo filho recém-nascido, um serzinho que exige dedicação exclusiva em um momento em que eu não posso me dedicar exclusivamente a alguém sem me sentir culpada por estar negligenciando o mais velho.

Bom, até aqui, você que não é mãe e optou por continuar lendo, ainda consegue entender que pode não ser um período fácil, não é? Perder sangue, emagrecer e amamentar o tempo todo, além de ter várias noites mal dormidas pode ser bem desagradável, certo? Certo. Mas não se trata exatamente desse tipo de problema físico. E é a partir daqui que mães e não mães se dividem em dois grupos.  

O puerpério é morte. Morte daquela que eu fui, morte daquela vida que eu tinha. Tudo novo, de novo. Aquela Vanessa está morta, mas ninguém vai perceber, por isso ninguém vai chorar por essa morte, somente eu. O puerpério é solidão. É se sentir absolutamente sozinha mesmo cercada de pessoas. O puerpério é perder a identidade. É não se identificar mais com aquela gestante ansiosa pelo parto, mas também não conseguir ainda se enxergar como mãe de dois filhos. Estar no puerpério é passar dias com um choro entalado na garganta e não conseguir encontrar um motivo digno para chorar. É não ter coragem de compartilhar sua solitária dor com alguém por medo de ser incompreendida. Porque você sabe que será. Afinal, você teve uma gestação tranquila, teve o parto que queria, tem um filho perfeito, um marido companheiro, formou uma família linda. Não tem direito de estar triste. E mesmo que você encontre uma alma que vibre na mesma sintonia e se sinta segura para falar, você não saberá o que falar. Não há um motivo para o choro, não nesse plano, não um motivo palpável, claro, que possa ser definido racionalmente.

Esse é meu segundo puerpério, e como toda segunda experiência, esta sendo mais leve. Já conheço bem o gosto amargo dos sentimentos que me judiaram da primeira vez. Não posso dizer que somos amigos, eles ainda são capazes de me sufocar, mas o fato de saber que eles existem dentro de mim facilita uma convivência sem tanta resistência. E talvez essa seja a palavra chave, ao menos pra mim: não resistir. Não tento mais vencê-lo ou ignorá-lo, me entreguei e vivo esse momento por inteiro, por mais difícil que possa parecer. É uma fase única de contato com as minhas mais profundas sombras e eu não quero deixar isso passar em vão.  Assim como eu escolhi um parto sem nenhum tipo de anestesia porque eu queria sentir tudo, sentir meu corpo, me autoconhecer, novamente eu escolho viver essa experiência sem filtros, sem anestésicos, sem fugas. Eu quero viver intensamente este puerpério e não somente sobreviver a ele.

“Há a velha eu partindo e a nova eu habituando-se a si mesma. E há uma forte amizade entre ambas. Muiticoexisto coesa. Há entre a velha e a nova uma gratidão enorme que amansa medos. Uma consciência que sorri para tudo o que fui. Consciência que flui em ritmo de autosororidade. A nova gentilmente aguarda o momento em que a velha se sinta pronta para ir, sem despejos. A velha sente que a nova é bem-vinda. Elas se abraçam, conectadas e belas como o brilho de uma verdade sentida e vivida com intensa profundidade." Natacha Orestes

sábado, 25 de janeiro de 2014

Carta de uma mãe para o seu primogênito



Tales,

Em alguns dias você deixará de ser filho único e se tornará irmão mais velho, um posto que você vai ocupar pelo resto da vida. Durante pouco mais de dois anos fomos só nos três, eu, você e seu pai. Nesse período aprendi a ser mãe por tentativa e erro e você foi a cobaia dessa experiência. Sou feliz pela pessoa que me transformei por meio de você e te serei grata por isso eternamente.

Logo vamos trazer pra casa um bebê com quem você precisará dividir minha atenção. Durante algum tempo ele não vai se mostrar muito interessado em você, mas eu garanto que isso vai mudar e você vai ganhar um amigo em potencial.

Eu sei que só o laço de sangue não é uma garantia de que vocês vão se dar bem, mas, acredite, isso não é o mais importante. Tendo um irmão você terá alguém com quem dividir todas as alegrias e as tristezas de ter nascido nessa família. Alguém com quem dividir todas as pesadas projeções que os pais fazem para a vida dos filhos, mesmo sem querer. Alguém para ajudar a guardar as lembranças da infância que vocês viverão juntos. Alguém com quem dividir a inevitável dor que vocês sentirão quando seu pai e eu não estivermos mais com vocês.

Talvez eu nunca consiga retribuir toda a riqueza que você me trouxe ao me permitir ser tua mãe, mas nesse momento a melhor coisa que posso fazer por você, meu filho, é ter outro filho.

Um beijo,

Vanessa

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Como passar de uma figura angelical para uma bomba relógio em um dia

Hoje, 40 semanas e 6 dias da minha segunda gestação. Fisicamente, me sinto enorme, mas ainda assim bem disposta. Psicologicamente, gostaria de estar mais forte.

Ter um final de gestação digno era uma coisa que eu queria muito, já que na minha gestação anterior eu pulei essa parte. Saí de casa para uma consulta de rotina com 37 semanas e voltei dois dias depois com um filho no colo. Não tive tempo de ficar ansiosa, de ficar inchada, de receber ligações diárias de gente querendo saber se já nasceu. Nada do que pra maioria é insuportável consegue ser nem desagradável pra mim nesse momento. Eu queria muito viver isso.

Mas parece que a 40ª semana é uma data cabalística em que você deixa de ser uma figura angelical e vira uma bomba relógio. Por mais que a gente saiba que gestações humanas podem ir ate 42 semanas, precisamos ficar entoando internamente o mantra "cada dia a mais é um a menos". É fácil se perder nessa hora, confesso. Especialmente se você não estiver cercada de pessoas que acreditam em você e no poder do seu corpo. Alem, obviamente, de estar sendo acompanhada por um obstetra verdadeiramente humanizado e que acredite que o parto é um evento fisiológico e não cirúrgico. O que tem me ajudado muito nessa fase tem sido ouvir palavras de conforto de quem já teve experiências boas de parto. Porque é muito fácil pirar e agendar uma cesárea. Mais do que nunca, não julgo quem o faça.



Logo eu que sempre fui daquelas que, pra se sentir segura, precisava estar no controle de tudo. E agora me vejo aqui, totalmente entregue ao acaso, a um tempo que não é meu, que eu não posso controlar. Que eu não quero controlar.

Eu tento administrar a ansiedade pensando: bebês nascem! Sim, nascem. E, em condições normais como as que eu me encontro, se ninguém intervir, eles nascem naturalmente. É só uma questão de tempo. E de conseguir se convencer disso.


Hoje tive outra consulta do pré-natal. Nenhuma novidade, tudo sob controle. E meu obstetra continua me encorajando a esperar, somente esperar. "Confie no seu corpo, não queira apressa-lo", diz ele ao me ver ansiosa. E eu sigo confiando.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Carta ao meu antigo obstetra.

Falar sobre parto, hoje em dia, é algo muito polêmico. Se você opta por um parto natural, então, dificilmente vai poder sair por aí falando isso abertamente. Essa semana me surpreendi positivamente quando uma pessoa que não tenho muito convívio, mas a qual eu admiro bastante por suas opiniões claras, me perguntou sobre como havia sido o parto do Tales e como seria o meu próximo parto. Eu contei da minha experiência e do que eu busco agora. Ao contrário do que muitas vezes acontece, não fui julgada, não fui chamada de louca, fui ouvida e acolhida.

Ao dividir com ela o meu descontentamento com relação à cesárea que eu sofri, ela me surpreendeu contando também as suas experiências: 2 cesáreas indesejadas e desnecessárias. Aquilo me tocou tanto que só de lembrar me enchem os olhos de lágrimas. Já se passavam mais de 20 anos e ela ainda se emocionava ao dizer que gostaria que tivesse sido diferente, que sente muito por ter sido enganada pela médica, que roubou dela um momento tão precioso, pelo qual ela jamais irá passar novamente. Nós sentimos a mesma dor, em corpos diferentes.

Esse episódio me fez pensar muito. Não quero sentir o que sinto pra sempre, preciso fechar este ciclo. Com isso, tive a ideia de escrever para aquele que foi o protagonista do nascimento do meu filho: meu antigo obstetra. E foi ótimo, lavou minha alma. Com lágrimas.



Doutor,

Sei que o senhor não faz idéia de quem eu sou, então eu faço questão de te lembrar. Sou sua paciente desde a minha adolescência, quando fui levada ao seu consultório pela minha mãe, também sua paciente. Minha mãe, uma mulher que pariu naturalmente 3 dos 4 filhos com a ajuda do senhor, e num destes partos naturais eu vim ao mundo. Por suas mãos.

Nunca havia me consultado com outro médico, então quando resolvi que era hora de ter um bebê não tive a menor dúvida: seria o senhor o meu obstetra. Um dia cheguei ao seu consultório com um exame de gravidez positivo, milhares de dúvidas e muitos medos, mas pra mim o senhor era um porto seguro.

Nas consultas o senhor era sempre muito atencioso, me deixava muito a vontade. Quando eu expressava minhas dúvidas com relação ao parto, você fazia questão de me assegurar que o parto normal era o melhor para mim e para o bebê. Mesmo quando eu demonstrava medo, você me acolhia, me tranquilizava, me incentivava. Afirmava com orgulho que não fazia cesárea eletiva, que se uma paciente chegasse até o senhor com o pedido de agendar uma cesárea, você se negaria e indicaria um colega. Quanto orgulho eu sentia do obstetra consciente que eu tinha escolhido. 

Numa noite de domingo o senhor foi incomodado por uma ligação minha: eu estava com dores e contrações. Eu sentia que algo não estava certo, fui pra maternidade e assim que lá te encontrei fiquei tranquila, agora eu estava segura. Você me fez acreditar que eu estava em trabalho de parto prematuro, mas que conseguiria inibir e segurar meu bebê por mais algumas semanas. Recebi alta em 2 dias e o senhor me indicou repouso absoluto, até o dia da próxima consulta.

Com 37 semanas e 1 dia de gestação, às 2 da tarde, eu estava em seu consultório para o que seria a última consulta do meu pré natal. Você cumpriu todos os protocolos que eu já conhecia, me pesou, mediu minha pressão, fez o toque, tudo ótimo. Ao ouvir o coraçãozinho do bebê, o senhor fez uma cara atípica e me disse algo que jamais sairá da minha memória: “seu bebê está em sofrimento”. Eu não entendia, eu não estava sentindo nada, como poderia meu bebê estar correndo risco sem meu corpo me avisar? Mas eu confiava no meu obstetra e o melhor a fazer era seguir as suas instruções. Eu ia ganhar meu bebê naquele dia. Perguntei como seria o parto, se seria possível ter parto normal e o senhor me garantiu que sim, que estava tudo sob controle e que não era pra eu me preocupar com isso.

E assim, fiz tudo exatamente como o senhor me instruiu: fui pra casa, arrumei minhas malas e fui pra maternidade.  Lembro que antes de sair do seu consultório, o senhor me pediu pra não esquecer de levar meu talão de cheques, para pagar os honorários da instrumentadora cirúrgica. Como pude não perceber que o seu plano era me operar depois de um pedido desses? Eu ainda não havia entendido que passaria por uma cirurgia, precisei chegar na triagem do hospital para que a enfermeira que me atendeu me desse a notícia: “sua cirurgia está marcada para que horas, Vanessa?” Oi? Cirurgia? Não, eu vou tentar parto normal. Ela me olhou com cara de espanto e falou que meu encaminhamento era para uma cesárea, mas que te ligaria para que o senhor me esclarecesse. Conversamos pelo telefone e você me deixou muito angustiada quando disse que poderíamos até esperar por um parto normal, mas que corríamos o risco de o bebê sofrer muito. O senhor acha que alguma mãe no mundo esperaria?

E o final dessa história você já conhece, é igual para todas as suas pacientes. O senhor me operou mesmo sabendo que eu não precisava daquela cirurgia, meu filho foi apenas mais um que veio ao mundo com a ajuda do seu bisturi. Ele nasceu bem, teve ótimas notas de apgar, sugou meu peito perfeitamente depois que me recuperei da anestesia. Mas nós dois sabemos que ele não estava sofrendo e poderia ter ficado mais algum tempo dentro de mim, até chegar a hora que ele escolhesse para nascer, quando estivesse seguramente pronto. Felizmente, tudo o que poderia dar errado, não deu. E apesar de tudo, esse foi e sempre será o dia mais feliz da minha vida.

Então o senhor deve estar se perguntando agora: o que quer essa mulher afinal? E eu te respondo: quero te perdoar. Preciso fechar este ciclo. Estou grávida novamente e desta vez estou fazendo tudo diferente. Meu objetivo é parir meu segundo filho naturalmente e pra isso me informei e busquei ajuda de um obstetra humanizado, que me ajudou a abrir os olhos para a violência que eu sofri ao passar por uma cirurgia desnecessária. Caso algum problema aconteça, vou aceitar de coração aberto outra cesárea. O que eu não aceito é ser novamente enganada. Não guardo mais rancor do senhor, juro. Sei que a realidade do mercado obstétrico brasileiro é ingrata, que o senhor não é o único culpado, que é um problema multifatorial. Tem muita gente lucrando e isso não vai mudar tão cedo. Mas saiba: da minha parte, sinta-se perdoado.

Vanessa


Nota: É evidente que eu não mandei a carta para ele. Foi somente uma forma que eu encontrei de expressar o meu perdão, algo que é importante somente pra mim. Pra ele, eu sou só mais uma.